quinta-feira, 10 de maio de 2007

A inflação caiu – e agora?! - 1ª parte

Com a inflação na casa dos 3% ao ano as empresas vão ter que começar a repensar a gestão de pessoas – se é que ainda não o fizeram. Os velhos conceitos da época em que a inflação variava na casa de dois dígitos por mês não podem mais ser aplicados.
À primeira vista despontam três pontos de preocupação no âmbito da gestão de pessoas: os custos da mão-de-obra, a remuneração como motivação e as relações trabalhistas.
O custo da mão-de-obra é elemento importante para a maioria das empresas. A inflação alta mascarava os custos, mas também permitia que se aplicasse ao pessoal as mesmas regras do jogo da defasagem. Embora ela ocorresse diariamente, os salários eram corrigidos a cada ano, semestre ou trimestre, conforme o plano econômico em vigor. Mesmo na fase final, quando o reajuste salarial passou a ocorrer todo mês, ainda poderia haver algum ganho por conta dessa defasagem entre receita e pagamentos.
Hoje o quadro bem diferente. Além da baixa inflação, temos os preços muito menores das economias emergentes e a compressão sempre crescente da pequena faixa entre preços e custos em todas as fases da cadeia produtiva. As empresas atuam em todos os componentes do custo, mas a área mais afetada acaba sendo a das pessoas.
Muitos caminhos já foram tentados para manter uma margem razoável. A análise é quase sempre bidimensional, considerando que o custo da mão-de-obra é o produto do número de empregados pela remuneração de cada um. Essa abordagem também carreia duas conseqüências perversas: reduz-se o número de potenciais consumidores e reduz-se o poder de compra dos que continuam empregados. Haverá, então, uma probabilidade muito grande de recessão, se a mesma técnica for usada por vários segmentos econômicos.
Uma análise tridimensional, porém, sugere soluções criativas fora da abordagem cartesiana da engenharia industrial. O terceiro elemento dessa equação, apontado muito bem pelos administradores japoneses, é o desperdício que ocorre no conteúdo da mão-de-obra. A empresa paga a remuneração de um empregado para tê-lo integralmente durante um certo número de horas por dia, mas utiliza apenas pequena parte da sua capacidade, em geral só os braços e mãos. A utilização de outros atributos da pessoa (mente, sentidos, comunicação etc.) poderia trazer grandes benefícios para a empresa e, principalmente, para as pessoas, que deixariam de ser simplesmente “braços”, para usar uma terminologia do tempo da escravidão.
Cabe ainda levar em consideração outro elemento, que é a dinâmica dos custos. Saindo da visão estática, observamos que a maioria dos componentes do custo são irreversíveis. Daí, quando as coisas vão mal, cortamos pessoas e reduzimos salários. Haveria outras opções se parte significativa da remuneração fosse reversível (por exemplo, incorporada na PLR), possibilitando uma maior flexibilidade dos custos.
É óbvio que é longo e árduo o caminho a ser percorrido em direção à utilização integral da capacidade dos empregados e à flexibilização de maior parte dos custos – mas no final valerá a pena. Deverá haver muito esforço em desenvolvimento da capacitação de cada pessoa da organização e da preparação organizacional para que essas pessoas mais capacitadas possam realmente contribuir de maneira produtiva para o progresso das empresas e possam entender os ganhos sociais das mudanças.

Sobre motivação e relações trabalhistas falaremos em outra oportunidade.

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