sexta-feira, 1 de junho de 2007

Marcola, o Juízo Final e os oportunistas

A primeira vez que ouvi falar sobre a entrevista do Marcola falando do "juízo final" foi por um executivo que havia recebido e-mail de um colega da Europa. O europeu estava muito, muito agitado com o conteúdo da entrevista. E todos os que tomaram conhecimento também ficaram assim.

Felizmente agora, meses depois, tomamos conhecimento de matéria publicada no Observatório da Imprensa em 27 de junho de 2006 desfazendo toda a fantasia: a matéria foi inventada por um comentarista e, através da internet, ganhou a aparência de realidade, inclusive com formatação de apresentação em PowerPoint. Tudo muito propício às vésperas das eleições.

Transcrevemos abaixo o comentário feito pela Psicanalista Anna Veronica Mautner a respeito.

Pessoal: temos que ter cuidado no encaminhamento de mensagens pela internet. Entre receber e remeter é bom gastar uns minutinhos pensando a respeito.


``ENTREVISTA´´ DE MARCOLA
Onde começa e onde termina o virtual

Por Anna Veronica Mautner em 27/6/2006

Um belo dia, há duas semanas se muito, começou a aparecer entre meus e-mails, vindo de conhecidos e também de conhecidos de conhecidos, um texto de três páginas que continha – segundo o título – uma entrevista realizada por um repórter da Globo, anônimo, com o prisioneiro Marcola.

Confesso que fui tomada por um mecanismo que na psicanálise é chamado "mecanismo de negação". Isto é, apaguei o fato de ter estranhado que uma entrevista tão importante não tivesse o nome do jornalista que a tivesse realizado. Preferi não acreditar nesta minha observação que mais tarde, como veremos, teria tudo a ver.

Li e reli a entrevista. Amei. Entre surpreendida e estonteada, andei dias com o papel na mão. Como eu sou analfabeta em máquinas e não sei usar o "encaminhar", só sei usar o "responder" e o "imprimir" – a corrente parou na minha mão. Outros, mais hábeis que eu, continuaram espalhando a entrevista pelo mundo afora. Conversei até não mais poder a respeito do significado de tão maravilhosa entrevista, de tantas respostas pertinentes e argutas.

Quando já parecia estar passando o efeito, eis que me chega na forma de comunicado: a entrevista chegando às mãos de determinado jornalista, parou. Este esclareceu a uma de minhas amigas da corrente que o tal texto era da lavra de Arnaldo Jabor. Este meu amigo, Jabor, tinha inventado uma entrevista fictícia para sua coluna semanal. As perguntas e as respostas eram da lavra dele.

Criação de diálogos

O que de fato me deixou perplexa, me aturdiu, foi que todo um grupo de brasileiros, urbanos, alfabetizados, nível superior, gente do mundo, gente nada ingênua, tenha aceito que a produção intelectual de Jabor poderia ter sido gerada por Marcola que vive, sempre viveu, em um outro universo onde vigoram outros parâmetros e conceitos. Se fosse de verdade, com certeza teria o nome do entrevistador e ainda teria tido seguimento da imprensa.

Dias depois, encontro pessoalmente com Jabor, que tinha ouvido falar de uma certa entrevista do Marcola que estaria circulando, mas ainda não tinha chegado até ele. Ele confessou que não imaginou que se tratasse de sua própria obra de ficção. E assim se fechou a corrente.

Uma dramaturga disse que poderia ter desconfiado, pois a entrevista era obra de alguém afeito à criação de diálogos. Muita gente, pelo visto, estranhou. Contudo, queríamos todos que fosse verdade.

Por quê? Ainda não tenho resposta.

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